segunda-feira, 30 de agosto de 2010

ALEGRIA RACIONADA

Essa escureza na alma
Esse brandir desesperado
De asas mortas
Voo que não voa
Esse mastigar de solidões
Ruminar de desesperos futuros
Essa busca da busca
Do motivo da busca imotivada
Essa secura imensa
Na garganta e nas retinas...
- Maria, vai ver o registro,
Acho que cortaram a alegria outra vez!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Eu quero ser um vale

Eu quero ser um vale
Que se estenda longamente
Aos pés de íngremes montanhas

Oculto do verde das árvores
Dos pássaros canoros e das flores

Abrigo de animais perdidos
Árvores secas
E aves que não cantem

Abrigo de sombras
Em que nasçam e morram
Mistérios intocados

Distante de todo e qualquer ser humano
Tão distante
Que nem mesmo a imaginação confusa
De um tolo poeta
Possa me encontrar.

sábado, 26 de junho de 2010

Como é difícil ser eu

E de repente estas criaturas desconhecidas
Que fulguram no invisível
Assumem aspectos meus

Invadem a minha casa
Comem minha comida
Sonham meus pesadelos
Pilham minha tristeza - tudo que tenho

Mas logo irrompem como loucas
E saem às ruas gritando e chorando
As mais sensíveis se matam...

Como é difícil ser eu!

Carta aos que me veem passar

Não se preocupe comigo
Cuide-se apenas
Da minha vida o acaso cuida
E muito bem

Não sinta pena de mim
Caminharei
E embora não conheça a direção
Sei o destino

Não se detenha em sua vida
Pra me ver passar
Nada adianta
Eu passo melhor sozinho
Como um passarinho

Outro Eu

Talvez um dia eu me torne outro
Ande com minhas outras pernas
Por aí
Espalhe outros sorrisos
A pessoas que certamente não me reconhecerão

Talvez eu escolha outra profissão
Case com outra mulher
Tenha outro nome
Funde outro reino, seja Rei

Talvez então numa manhã qualquer
Eu me admire no espelho
Com saudades do que sou agora.

Veredicto

Culpado
Com toda a razão
Pois diante dos teus olhos
Toda a razão
Se desfaz.

De Repente

De repente estamos sós outra vez
O tempo passou
As pessoas passaram
O ímpeto, a paixão, o fogo, a juventude
Para onde terão ido?

De repente somos nós, apenas nós
Nós e a janela
Nós e o pôr - do - sol
Nós e uma andorinha, e o céu, e as nuvens
O mundo parece ter mesmo parado...

Mas alguém de repente nos chama
Alguém sempre se lembra de nós
E tudo volta ao normal
Deixamos a solidão quieta num canto
Conformada
Ciente de que mais cedo ou mais tarde
Iremos voltar.